Fé e Psicologia: Um diálogo possível

O impacto da fé dentro da saúde mental



Natalia dos Santos Leite Batista

Milena Macedo Leal


Quem nunca ouviu que psicólogo é coisa de doido? Ou que as doenças psicológicas estão associadas a falta de fé? Buscando romper com alguns pré-conceitos e na tentativa de conscientizar sobre a importância de buscar ajuda de um profissional qualificado estamos escrevendo este texto.

  • É falta de fé?

Dentro da Igreja Católica temos dois padres muito conhecidos e que já passaram pela depressão e pela síndrome do pânico, provavelmente os conheçam: Padre Marcelo Rossi e Padre Fabio de Melo. Ambos buscaram ajuda para sair deste sofrimento e hoje se encontram bem, acredito que este fato já anule a questão da falta de fé.


Infelizmente, nem sempre as patologias foram vistas como doenças tratáveis e durante muitos anos, acreditava-se que comportamentos de tristeza excessiva, surtos psíquicos, entre outros, eram possessões demoníacas. Com o passar dos anos, através de estudos e comprovações científicas, ficou claro que não havia relação pertinente.

  • Existe uma oposição da psicologia com relação a religiosidade?

Em resposta ao debate travado na mídia e nas redes sociais acerca da relação entre religiosidade e exercício profissional da(o) psicóloga(o), o Conselho Federal de Psicologia (CFP) esclarece o que segue. Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o “sagrado” pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com os quais trabalha. (Nota Pública do CFP de esclarecimento à sociedade e às(o) psicólogas(o) sobre Psicologia e religiosidade no exercício profissional)


Pautados na Constituição de 1988 e no Código de Ética do Psicólogo cabe ao psicólogo respeitar todas as crenças pessoais de seus pacientes/clientes, embasando seu trabalho na ciência psicológica. Deste modo, fé e/ou religião só será relevante para o profissional, caso o mesmo seja relevante para o paciente/cliente.


Esclarecida esta primeira parte nos cabe falar sobre os impactos da religiosidade na saúde mental. Segundo Murakami e Campos (2012) há uma diferença entre religiosidade e espiritualidade, a religião é uma expressão da espiritualidade e para que exista é necessário um sistema de culto e doutrina (um conjunto de ritos, crenças e leis) específicos, a qual pode vir a se modificar conforme o contexto cultural e tempo histórico. Quando falamos de espiritualidade olhamos para um termo mais amplo, que está relacionado com um sentimento pessoal, o qual dá significado a vida, na crença em algo além do que é visto e este sentimento o move em direção a si mesmo e ao outro.


Segundo Ávila (2007) a religião é uma das formas em se buscar sentido para a vida e o que torna esta busca distinta das demais é a referência ao sagrado, ou seja, a substância primordial da religião.


Dentro do âmbito clínico, acreditar e buscar sentido para a vida, é primordial no processo de melhora de uma patologia, afinal, a depressão por exemplo, tem como característica a falta de vontade de viver.


Allport e Ross (1967) definiram dois polos de motivação religiosa, a extrínseca e a intrínseca. Pessoas com motivação religiosa extrínseca utilizam a religião para satisfazer as próprias necessidades, sendo os valores extrínsecos utilitários e instrumentais. Pessoas com esta orientação podem julgar a religião útil, de várias formas: para fornecer segurança e conforto, sociabilidade e distração.


Pessoas com motivação religiosa intrínseca dão uma importância principal à própria religião, sendo as suas necessidades próprias relegadas para último lugar, vividas tanto quanto possível em harmonia com as crenças religiosas.


Aqueles que tem relação intrínseca com a religião, podem apresentar grandes probabilidades de pertencerem a um contexto social, buscar na religião mecanismos para encarar sofrimentos e utilizam as crenças religiosas de forma harmoniosa para seu bem-estar psíquico. Por outro lado, quando essa vivência acontece de maneira extrínseca, pode ocorrer da pessoa ter implicações comportamentais e psíquicas, levando a distorções, culpas, auto-humilhação e baixa auto-estima, sendo assim um agravante para padrões comportamentais que potencializam o sofrimento ou processo da doença.


Independente se há ou não uma crença religiosa, qualquer forma de sofrimento deve ser respeitada e validada. Infelizmente ainda hoje existem pessoas que acreditam que a psicologia não é necessária quando se crê em Deus, porém, tanto a fé quanto a ciência, não precisam andar separadas. Cada pessoa tem sua individualidade e cada situação é diferente da outra. Precisamos agir com responsabilidade dentro de todos os contextos, afinal, os objetivos se encontram no final, que é o bem-estar de todos.


Referências

Allport, G.W., & Ross, J.M. (1967). Personal religious orientation and prejudice. Journal of Personality and Social Psychology, 5(4), 432-443.

ÁVILA, A. Para conhecer a Psicologia da Religião. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

MURAKAMI, Rose; CAMPOS, Claudinei José Gomes. Religião e saúde mental: desafio de integrar a religiosidade ao cuidado com o paciente. Rev Bras Enferm, Brasilia 2012 mar – abr, 65 (2):361-7

https://site.cfp.org.br/nota-pblica-do-cfp-de-esclarecimento-sociedade-e-so-psiclogaso-sobre-psicologia-e-religiosidade-no-exerccio-profissional/ - Acesso 21/01/2020 ás 15:52

FAÇA PARTE DA NOSSA MISSÃO

Cadastre-se em nossa lista

de e-mail e receba todos os conteúdos

  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram

Rua Comandante Carlos Alberto, 222

Jardim Caravelle - CEP 86039-150

(43) 3337-6625

Londrina - Paraná

VERMELHO.png