Pastoral do Surdo: por entre a Cultura do Sinal e a Cultura da Palavra



Poderíamos definir a comunidade surda como uma “microcultura” a partir da antropologia cultural. De acordo com a definição dada por Spradley e McCurdy, as “micro-culturas” são sistemas de conhecimento cultural que caracterizam os grupos dentro de sociedades maiores. Os membros de uma microcultura normalmente compartilham uma grande parte de seu conhecimento com cada indivíduo dentro da sociedade maior, mas possuem uma consciência cultural que pertence apenas ao seu grupo, esse entendimento compartilhado é que constrói a sua microcultura (Cit. Turner de 1994.:113).


Deste modo, a Igreja vocacionada a sempre atualizar o Effatá misericordioso de Jesus nessa microcultura[2] e por sua vez favorecer o processo de inculturação do evangelho, teve uma fundamental importância na história educacional do sujeito surdo, bem como no uso das línguas de sinais e valorização da cultura surda. A história da educação demonstra de maneira exemplar as ligações históricas entre a Igreja , a surdez e o uso das línguas de sinais.


É sabido que o surgimento educacional de pessoas com surdez está vinculado aos trabalhos de inúmeros religiosos que graças ao seu incessante e árduo ofício conseguiram demonstrar que era possível educar e evangelizar essas pessoas que até então vinham sido deixadas à margem na sociedade. “Educar para evangelizar[3]”.


Diversos sacerdotes, religiosos e religiosas dedicaram suas vidas e se empenharam na ilustre arte de educar e evangelizar os surdos pelo Mundo. Na Europa: Espanha século XVI, atuação do monge beneditino espanhol Pedro Ponce de León (1520-1584). Na França Abade L’Epée (1712-1789), é tido como o primeiro educador que, de fato, utilizou os sinais atribuídos aos surdos para a educação, fundando uma pioneira metodologia educacional. Na Itália: Pe. Antônio Provolo (1801-1842), Padres: José Gualandi (1826 -1907) e Césare Gualandi (1829-1886) que nos meados do Século XIX foram os responsáveis pela criação de institutos que utilizavam a metodologia dos “sinais” (cultura do sinal) e o método oral (cultura da palavra) para a educar e catequizar os surdos, São Felipe Smaldone (1848-1923), dentre outros.


No Brasil podemos citar o legado evangelizador de Padre Eugênio Oates, e Monsenhor Vicente Burnier considerados como os “bandeirantes” da ação evangelizadora dos surdos em solo brasileiro (1950). Conscientes de que a evangelização dos surdos deveria, então, inspirar-se no amor do sujeito surdo em si mesmo e por si mesmo, especialmente naqueles aspectos do seu ser e da sua cultura que são atacados ou ameaçados, partiram pelo Brasil fundando e sistematizando a pastoral do surdo para que esse pequeno “germe” pudesse se transformar em um grande movimento de inclusão da pessoa surda na vida eclesial e educacional, pois, o Reino que o Evangelho anuncia é vivido por sujeitos profundamente ligados a uma cultura; a construção do Reino não pode dispensar os elementos da cultura e das culturas humanas[4]. Depois destes grandes homens pioneiros da evangelização dos surdos no Brasil inúmeros outros sacerdotes, congregações, religiosos e religiosas se dedicaram à educação e evangelização dos surdos em território nacional.


Desta forma, a Igreja movida pelos imperativos de Jesus nos evangelhos, “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho”[5] sempre reconheceu nesta parcela do povo de Deus sua dignidade cultural. «A Incarnação do Verbo foi também uma incarnação cultural»[6], a cultura surda, analogicamente comparável à humanidade de Cristo, naquilo que têm de bom, pode desempenhar uma função positiva de mediação para a expressão e irradiação da fé cristã em meio aos surdos. Porque a Igreja, «sacramento universal da salvação[7]», ou seja, «sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo gênero humano[8]», é chamada por Deus a ministrar e veicular a unidade em Jesus Cristo, para todos os homens e para todos os povos. Sendo assim, Ela deve estar presente e propagar o evangelho em meio a cultura surda se servindo de meios eficazes para poder conseguir levar efetivamente a Boa Nova de Cristo em meios aos surdos.


Portanto, a pastoral do surdo, como autêntica pastoral da Igreja, testemunha, difunde e promove a divulgação do Evangelho entre os surdos de um jeito próprio, amparado e estruturado a partir da cultura surda. Desta forma, a ação pastoral exercida entre os surdos e ouvintes promove a restauração da unidade de todos cristãos [9] e propaga a difusão da cultura do “sinal” e da “palavra” como duas faces de uma mesma moeda chamada evangelização e enculturação do Evangelho em meio aos surdos. “Todo Coração de Surdo é terra de Missão [10]” e digo mais .. é uma terra boa e muito fértil.


Diácono Glauber Gualberto

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